segunda-feira, 11 de março de 2013

Uma Igreja Pródiga Em Um Mundo Pródigo


Livro: Por que tarda o pleno Avivamento?
Leonard Ravenhill
  CAPÍTULO DOZE

     Quem fizer um exame geral da igreja hoje ficará a perguntar-se quanto tempo o nosso Deus santo ainda vai-se segurar para não vomitar essa Laodicéia de sua boca. Se há uma coisa em que todos os pregadores estão de acordo é que esta é a era da Igreja de Laodicéia.
E apesar de estar suspensa sobre nossa cabeça a espada de Dâmocles da rejeição divina, nós, os crentes, somos preguiçosos, amantes das comodidades, e sem amor. Pois embora nosso misericordioso Deus perdoe nossos pecados, purifique nossa iniqüidade e se compadeça de nossa ignorância, o fato é que nosso coração morno é uma abominação para ele. Temos de ser quentes ou frios, ardorosos ou congelados; ou estamos ardendo de fogo espiritual, ou somos refugo. Deus abomina a falta de amor e de calor.
Nos dias atuais, Cristo está sendo “ferido na casa de seus amigos”. O livro de Deus hoje “sofre” mais nas mãos de seus expositores do que nas de seus opositores.
Somos descuidados no emprego de textos das Escrituras, interpretamo-los de forma distorcida, e lenta demais para nos apropriarmos de suas incomensuráveis riquezas. Um pregador defende a inspiração da Bíblia com fala eloqüente e espírito fervoroso, usando todo o seu vigor e energia. Mas, instantes depois, esse mesmo pregador, com uma calma mortal, começará a racionalizar essa mesma Palavra inspirada, com declarações contundentes:
“Esse texto não tem aplicação em nossos dias”.
E assim a fé ardorosa de um crente novo se esfria com um jato de água gelada que vem da incredulidade do pregador.
Somente a igreja pode “agravar o Santo de Israel”, e em nossos dias ela demonstra uma habilidade incomum nisso. Se existem níveis de morte espiritual, então o nível mais baixo que conheço é pregar sobre o Espírito Santo sem ter a unção do Espírito. Quando oramos, cometemos a imperdoável arrogância de suplicar que o Espírito venha a nós com sua graça — mas não com seus dons.
Vivemos dias em que o Espírito tem sido reprimido ou relegado a segundo plano, até mesmo nos círculos fundamentalistas. Precisamos declarar que queremos ver cumprida a escritura de Joel 2. Pode ser que até clamemos:
“Derrama teu Espírito sobre toda carne, Senhor!”
Mas, ao mesmo tempo, colocamos aí uma cláusula não expressa:
“Mas não deixe que nossas filhas profetizem, nem que nossos jovens tenham visões”.
“Ó Deus, se em nossa cultivada incredulidade e nesse nosso crepúsculo teológico e impotência espiritual temos entristecido e continuamos a entristecer o Espírito Santo, então, por misericórdia, vomita-nos da tua boca. Se não puderes fazer nada por nosso intermédio nem em nós, então, ó Deus, faze-o sem nós! Passa de largo por nós e assume para ti um povo que hoje não te conhece. O salva, santifica-o e reveste-o com o poder do Espírito Santo para realizar um ministério na esfera do sobrenatural! Depois envia-o ao mundo “formosos como a lua, puros como o sol, formidáveis como um exército com bandeiras” para reavivar esta igreja enferma que está aí, e abalar este mundo que se acha atolado no pecado”.
Pensemos um instante no seguinte: Deus não tem mais nada para nos dar. Ele já deu seu Filho unigênito para salvação dos pecadores; colocou a Bíblia ao alcance de todos os homens; enviou o Espírito Santo para convencer o mundo do pecado e revestir a igreja de poder. Mas de que vale um talonário de cheques se todos eles estiverem em branco, sem assinatura? Da mesma forma, que valor tem um culto, mesmo que seja de uma igreja fundamentalista, se o Deus vivo não estiver presente a ele?
Temos que saber manejar corretamente a Palavra da verdade. O versículo “Eis que estou à porta e bato” (Ap 3.20), não é dirigido a pecadores por um Salvador que aguarda permissão para adentrar o coração. Não. A figura aí é da triste imagem do Senhor à porta da Igreja de Laodicéia, querendo entrar nela. Imagine só tal situação! O texto mais lido nas reuniões de oração é: “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”. Mas na maioria dos casos ele não está no meio; está à porta. Cantamos louvores a ele, mas rejeitamos sua Pessoa.
Pegamos uma porção de comentários, e nos apoiamos nas notas de margem de nossa Bíblia, e assim como que nos imunizamos contra as ardentes verdades da imutável Palavra de Deus.
Não me espanto muito com a paciência que Deus tem com os pecadores, com homens de coração endurecido. Afinal, qualquer um tem paciência com uma pessoa cega e surda. E os pecadores nada mais são que cegos e surdos. Mas fico abismado com a paciência que ele tem com essa igreja egoísta, entorpecida, preguiçosa de hoje. O grande problema de Deus é que o mundo pródigo convive com uma igreja pródiga.
Ah, que crentes cegos, falidos e arrogantes somos! Estamos nus e não nos damos conta disso. Somos ricos (nunca a igreja teve tanto equipamento), mas na verdade somos pobres (nunca o nível de poder esteve tão baixo). Não nos falta nada (e, no entanto, falta-nos quase tudo que a igreja apostólica possuía). Será que ele está em nosso meio quando nos divertimos sem qualquer constrangimento, em nossa nudez espiritual?
Ah, como precisamos do fogo! Onde está o poder do Espírito Santo para derrubar os pecadores e encher nossos altares de convertidos? Hoje as igrejas estão mais interessadas em instalar seus aparelhos de ar condicionado, do que se condicionar para orar. “Porque o nosso Deus é fogo consumidor”. Deus e fogo são imagens inseparáveis; assim também são o homem e o fogo. Cada um de nós está trilhando um caminho de fogo: fogo do inferno para o pecador e fogo do juízo para o crente. E infelizmente milhões de pecadores irão experimentar o fogo do inferno porque a igreja perdeu o contato com o fogo do Espírito Santo.
Moisés recebeu seu chamado por meio do fogo. Elias invocou fogo do céu. Eliseu acendeu um fogo. Miquéias profetizou sobre a purificação pelo fogo. João batista afirmou: “Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”. E Jesus disse: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra”. Se nós tivéssemos com batismo de fogo a mesma preocupação que temos com o das águas, conheceríamos uma Igreja em chamas e experimentaríamos outro Pentecostes. A velha natureza pode querer escapar ao batismo nas águas, mas certamente o batismo de fogo a destruirá, pois ele “queimará a palha em fogo inextinguível”. Os discípulos de Jesus, que já haviam operado milagres e tinham presenciado a glória da sua ressurreição, só pregaram a cruz de Cristo depois que foram purificados pelo fogo.
Com que autoridade os homens pregam hoje, aqui ou nos países estrangeiros, sem antes ter vivido a experiência do “cenáculo”? Não nos faltam pregadores que queiram falar de profecias, mas nos encontramos muito pobres de pregadores proféticos. Não estamos apelando para que haja previsões espirituais e profetizadores do sensacional. O que resta para ser predito é muito pouco, pois temos a Palavra de Deus e a revelação da mente do Senhor nela. Mas precisamos muito de homens que possam apregoar. Ninguém pode monopolizar o Espírito Santo, mas ele pode monopolizar seres humanos, os profetas. Eles nunca são esperados, nem anunciados, nem apresentados — apenas aparecem. São homens enviados, homens selados, homens do sobrenatural. João Batista não operou nenhum milagre — quer dizer, os rios da miséria humana não correram para ele para que os tocasse. Mas ele soergueu uma nação que se encontrava espiritualmente morta.
Chego a admirar-me com nossos evangelistas que, sem constrangimento algum, relatam que experimentaram um maravilhoso avivamento em tal ou qual lugar, quando milhares de pessoas vieram à frente consagrando sua vida a Deus, e depois acrescentam uma explicação para satisfazer os fundamentalistas:
“... mas não houve desordem nem sensacionalismo algum”.
Mas será que pode haver um terremoto sem algum tipo de sensação? Ou pode haver um vendaval que não resulte em desordem? Não é verdade que o abrasante ministério de Wesley provocou uma revolução na Inglaterra? A Igreja da Inglaterra bateu a porta de todos os seus templos na cara desse “homem enviado por Deus, cujo nome era João” Wesley. Mas nem assim esses líderes religiosos conseguiram conter a maré daquele avivamento operado pelo Espírito Santo.
E Wesley, esse homem abençoado, abandonou a Universidade de Oxford, tendo “sido um fracasso total”, como disse ele à vista de todos (com a mente de um filósofo, o ardor de um zelote e a garganta de um orador), na tarefa de ganhar almas para o Cordeiro. Aí chegou o dia 24 de maio de 1738, e, numa reunião de oração numa casa à rua Aldersgate, ele nasceu do Espírito, e depois foi batizado por ele. E durante treze anos esse homem, que tinha um batismo de fogo, abalou três reinos.
O mesmo havia acontecido a Savonarola, que abalou a cidade de Florença, na Itália, a ponto de o rosto desse “monge louco” tornar-se um terror para os florentinos, e motivo de chacota para os fanáticos papistas.
Irmãos, à luz do conhecimento que temos sobre o altar de Deus, é melhor vivermos seis meses com o coração em chamas, apontando o pecado deste mundo, seja em que lugar for, e conclamando o povo a libertar-se do poder de Satanás e se voltar para Deus (como fez João Batista), do que morrer cercado de honrarias eclesiásticas e de doutorados em teologia, para se tornar motivo de riso no inferno, para os espíritos das trevas. Ridicularizar os magnatas da bebida e censurar os políticos corruptos não atrai maldição sobre a nossa cabeça. Há quem faça as duas coisas sem sofrer nenhuma ameaça à sua vida e à sua posição no púlpito. Os profetas do passado eram mortos porque combatiam veementemente as religiões falsas. E nós também devíamos nos deixar arder de santa indignação ao ver a religião falsa enganando nossos semelhantes, e roubando de nossos entes queridos a salvação; ou ao ver sacerdotes levando-os para o inferno sob a efígie de um crucifixo. E talvez, quem sabe, daqui a alguns anos, para abrir o caminho para uma nova reforma no século XX, nós sejamos queimados em fogueiras.
Esta aqui é para se ler e chorar: “Hoje o protestantismo mutilado vê os sacerdotes católicos romanos elogiando os evangelistas protestantes”. Responda em sã consciência, você acredita que esses mesmos papistas aplaudiriam Lutero ou apoiariam Savonarola? Ó Deus, envia-nos pregadores que possam entregar mensagens que penetrem o coração dos homens e o incendeie! Envia-nos uma geração de pregadores mártires, de homens em chamas, quebrantados e prostrados diante da visão de um castigo iminente e de um inferno eterno para os irregenerados!
Que Deus nos envie profetas, homens destemidos que clamem em alta voz e não poupem ninguém, que abalem nações com lamentos ungidos, que sejam fervorosos quase a ponto de se tornarem insuportáveis, duros a ponto de ser difícil ouvi-los, e descomprometidos a ponto de sofrerem perseguição. Estamos cansados de pregadores que se apresentam de roupas elegantes, linguagem suave e torrentes de palavras, mas apenas com uma gota de unção. São homens que entendem mais de competição do que consagração, mais de promoção do que oração. Substituem o crescimento do reino por propaganda, e se preocupam mais com a felicidade dos membros da igreja do que com a santidade deles.
Comparados com a igreja neotestamentária achamo-nos tão abaixo do normal, somos tão pouco apostólicos. Em muitos casos, a sã doutrina está fazendo muita gente dormir, pois a letra não basta. É preciso que ela esteja inflamada. O que dá vida é a letra mais o Espírito. Um bom sermão, expresso numa gramática perfeita, com uma interpretação irrepreensível pode ser tão sem gosto como uma colherada de areia na boca.
Se quisermos paralisar o comunismo e desmantelar a igreja romana precisamos de uma igreja batizada com fogo. Moisés foi atraído por uma sarça ardente; se a igreja estiver em chamas atrairá o mundo, porque eles ouvirão a voz do Deus vivo falando-lhes do meio dela.


“Quero ter fervor para com Deus. Afinal, de tudo o que Deus nos ordena, o principal é a oração. Ah, como desejo ser um homem de oração!”
— Henry Martyn.
“O amor arde como fogo, e sobrevive à base de calor. O ar que a verdadeira experiência cristã respira e o pão de que ela se alimenta são feitos de chama. E ela suporta qualquer coisa, menos uma chama fraca. E quando a atmosfera que a cerca é fria ou morna, morre congelada ou à míngua. Não há oração verdadeira sem chamas”.
— E. M. Bounds.
“Ah, quem me dera ter grande paixão pelas almas,
Ter urna compaixão que se apieda!
Ah, quem me dera ter um amor que amasse até a morte,
Um fogo que me consumisse!
Ah, quem me dera ter o poder da oração vitoriosa,
Que se derrama em favor dos perdidos!
Uma oração vitoriosa em nome Daquele que venceu,
Ah, quem nos dera um Pentecostes!”
— Amy Carmichael
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