terça-feira, 17 de setembro de 2013

A desobediência da vontade (Confissões - Santo Agostinho)


 
Mas, de onde vinha este prodígio? Qual sua causa? Brilhe a tua misericórdia, e perguntarei
– se é que me podem responder – aos sombrios castigos infligidos aos homens, e às tenebrosas
misérias dos filhos de Adão. De onde vem este prodígio? E qual sua causa?
A alma dá ordens ao corpo, e este obedece imediatamente; a alma dá ordens a si mesma,
e resiste. Ordena a alma à mão que se mova, e é tal sua presteza, que mal se pode distinguir a
ordem da execução; não obstante, a alma é espírito e a mão é corpo. A alma dá a si mesma a
ordem de querer, uma não se distingue da outra, e contudo, ela não obedece. De onde este
prodígio? E qual sua causa?
Manda a alma que queira – e não mandaria se não quisesse – e, não obstante, não faz o
que manda. Logo, não quer totalmente, e por isso não manda de modo total. A alma manda na
proporção do querer, e enquanto não quiser, suas ordens não são executadas, porque é a
vontade que dá a ordem de ser a uma vontade que nada mais é que ela própria. Logo, não manda
plenamente, e esta é a razão por que não faz o que manda. Porque, se estivesse em sua
plenitude, não mandaria que fosse, porque já seria.
Não há, portanto, prodígio algum em querer em parte e em parte não querer; é uma
enfermidade da alma. esta, sustentada pela verdade, não se ergue de todo, pois está oprimida
pelo peso do hábito. Há, portanto, duas vontades, ambas incompletas, e o que uma possui falta à
outra.

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